16 Dec 2011

Loucos se reconhecem

Naquele dia ela estava tão inquieta que saiu do prédio para espairecer, tomar um ar. O dia estava frio e luminoso. Acendeu um cigarro e começou a tremer de frio, então entrou no carro que estava estacionado próximo. Ligou o ar quente e fechou os olhos, absorvendo a luz do sol que não via faz tempo.

Pelo espelho retrovisor, notou uma agitação estranha. Do outro lado da rua havia parado um caminhão VW antigo, muito sujo, detonado, com placa de outro país e centenas de objetos espalhados no painel. Em volta dele se agitava o caminhoneiro, um velho esfarrapado e sujo de barbas brancas e cabelos longos. O homem ia e vinha para todos os lados como uma abelha rodeando o doce, e com um pano imundo limpava as janelas, a carroceria, as rodas do caminhão.

Por longos minutos ele limpou um lado, depois passou a limpar o outro. Ela observava tudo pelo espelho retrovisor, e quando os olhos do caminhoneiro e o seu se cruzavam, ela se assustava. Parecia que ele queria lhe perguntar alguma coisa. Mais que isso, ela tinha a impressão, sem saber porquê, de que ele iria lhe pedir comida.

Ligou o rádio e jogou a cabeça para trás, relaxando o corpo. Imóvel, com os olhos semiabertos ela seguia o pano imundo do caminhoneiro, subindo e descendo, circulando, alisando a carroceria do caminhão. Ele não parava, e buscava o tempo todo os olhos dela no espelho.

Com medo que ele se aproximasse, ela resolveu fazer alguma coisa. Parecia estranho “relaxar” dentro de um carro, assim, à toa, enquanto o outro trabalhava tanto. Pegou o telefone, colocou no ouvido e fingiu estar falando. Fazia movimentos exagerados com a boca, sorria, imitava expressões de surpresa, tudo em silêncio, sozinha. Enquanto isso o velho a observava, já um pouco mais natural em seus movimentos: por vê-la ocupada, perdeu o interesse.

Ela continuou falando com o ar. Inventou um diálogo consigo mesma sobre o que seu amigo imaginário havia feito no final de semana. Perdeu o homem pelo retrovisor, por alguns instantes. Até que sentiu o ar ficar escuro ao seu lado e... um susto! O caminhoneiro estava de pé ao lado da sua janela, olhando fixamente em seu rosto, com a mão espalmada no vidro do carro.

Por quase um minuto ele expôs a ela a mão nua, e olhou em seus olhos, instigando-a olhar bem para as linhas daquela pele, as linhas plenas de sujeira, a mão envelhecida que não se movia e pressionava o vidro, querendo entrar no carro, querendo entrar dentro dela.

Depois, sem outros gestos, retirou a mão do vidro, retornou até o caminhão e se sentou ao volante, deixando-a com o olhar infinito e o celular colado à cabeça.

Ele continuou a observa-la de dentro do caminhão, enquanto paralisada ela pensava. Se sair, o que ele poderia fazer? O que aquele homem queria com ela? Pensou que aquele poderia ser um pedido silencioso de ajuda, ele devia ter fome. E se ela se aproximasse e perguntasse como poderia ajuda-lo?

Mas ela era covarde. Muito. E egoísta. Simplesmente ligou o carro e fugiu pela rua, perturbada e angustiada com o caminho que seu dia havia tomado.

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